A morte dá jeito. Quando morrermos - e isso todos conseguimos, por mais incompetentes que sejamos - podemos esperar automaticamente que não nos tratem tão mal como em vida. Certamente que o caixão impede que nos dêem murros e abafa alguns insultos, mas é capaz de não ser apenas essa a razão para a mudança no trato.
Com efeito, o morto, em Portugal, é uma pessoa porreira, pá. Por mais estranha que tenha sido a sua vida. Acho que nenhum português que tenha morrido foi propriamente criticado depois disso. Mesmo Oliveira Salazar, tão alheio a essa coisa de votar, tem ganho concursos...
Luiz Pacheco é exemplo deste fenómeno: de acordo com a revista Tabu, do semanário Sol, além crítico literário e escritor respeitado por uma geração, ele foi também conhecido pela sua atracção por raparigas menores ou pelo seu alcoolismo e esteve preso por condutas a que hoje poucos hesitariam em chamar de pedófilas. Ainda assim, a sua morte teve honras de capa de jornais e revistas e reportagens nos vários noticiários da rádio e televisão. E gente no funeral. Para que fique claro: não a celebrar propriamente a sua morte, mas a sua vida. O que no caso de uma vida marcada por acusações de pedofilia, não deixa de ser... como se diz?... ah... ah... uma coisa estúpida...

Deste modo, no percurso da minha vida, irei seguramente incluir, como conclusão, a minha morte. Acho que é algo imprescindível no curriculum vitae de alguém. Quando estamos às portas do Céu, São Pedro não nos pergunta se andámos a violar crianças ou a aceitar pagamentos na Câmara a que presidimos. Na verdade, ele apenas pergunta se já morremos, caso contrário ainda é cedo para entrarmos no Céu. E depois, um tanto irritado com o equívoco, manda-nos de volta, mas apenas para fazermos tempo até chegar o nosso número na fila. Pelos vistos, para Luiz Pacheco, já tinha chegado o seu número...
Pedro
Com efeito, o morto, em Portugal, é uma pessoa porreira, pá. Por mais estranha que tenha sido a sua vida. Acho que nenhum português que tenha morrido foi propriamente criticado depois disso. Mesmo Oliveira Salazar, tão alheio a essa coisa de votar, tem ganho concursos...
Luiz Pacheco é exemplo deste fenómeno: de acordo com a revista Tabu, do semanário Sol, além crítico literário e escritor respeitado por uma geração, ele foi também conhecido pela sua atracção por raparigas menores ou pelo seu alcoolismo e esteve preso por condutas a que hoje poucos hesitariam em chamar de pedófilas. Ainda assim, a sua morte teve honras de capa de jornais e revistas e reportagens nos vários noticiários da rádio e televisão. E gente no funeral. Para que fique claro: não a celebrar propriamente a sua morte, mas a sua vida. O que no caso de uma vida marcada por acusações de pedofilia, não deixa de ser... como se diz?... ah... ah... uma coisa estúpida...

Deste modo, no percurso da minha vida, irei seguramente incluir, como conclusão, a minha morte. Acho que é algo imprescindível no curriculum vitae de alguém. Quando estamos às portas do Céu, São Pedro não nos pergunta se andámos a violar crianças ou a aceitar pagamentos na Câmara a que presidimos. Na verdade, ele apenas pergunta se já morremos, caso contrário ainda é cedo para entrarmos no Céu. E depois, um tanto irritado com o equívoco, manda-nos de volta, mas apenas para fazermos tempo até chegar o nosso número na fila. Pelos vistos, para Luiz Pacheco, já tinha chegado o seu número...
Pedro
6 comentários:
Muito bom post, certeiríssimo. Não há português que goste de dizer mal de alguém que morreu, nem que esse alguém fosse um grande camelo. E a tirada do Salazar é hilariante.
Concordo plenamente!
A morte "santifica" as pessoas!
(infelizmente)
Engraçado, escrevi algo semelhante (se bem que mais geral e abstracto) aqui há uns dias, no meu blog.
Eu li, muito bom. Como a mim também me havia "feito espécie" toda esta ode a "algo parecido com um porco depravado", escrevi estas linhas. ;-)
Pedro
Desculpa discordar, mas não me parece que ele tenha sido assim tão bem tratado.
Li 2 entrevistas publicadas nos dias que se seguíram à sua morte (dadas pouco tempo antes) - uma no Jornal de Negócios(!) outra na Única (ou Tabu, já não me lembro) - e o mínimo que posso dizer é que lá estava tudo.
O próprio Luiz Pacheco não poupou as palavras. Para quem quisesse ler, estava à sua frente a descrição exaustiva - sem quaisquer restrições quanto a palavrões - da vida do autor. Desde a "alegada" pedofilia, ao alcoolismo, passando por cenas de pancadaria. Tudo sem a mínima intenção, quer do escritor, quer - evidentemente - do Jornal, de encobrir qualquer facto.
Como não o conhecia antes, não posso opinar sobre se esta verborreia se deveu a uma senilidade latente ou se era mesmo a maneira de ser do homem, embora me incline para um misto das duas.
Isto tudo para dizer, sem qualquer intenção de defender o homem, que ele não foi "endeusado" pelos "media". Aliás, tal seria, no mínimo, uma árdua tarefa de branqueamento!
Foi, isso sim, alvo de muito mais atenção da comunicação social.
Mas nisto não vejo qualquer inconveniente!
Magnifico comentário, gostei
Luís Maia
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