Segundo o credível jornal New York Times (1, 2), Israel conduziu um ataque aéreo a instalações na Síria onde, alegadamente, estariam armazenado material nuclear proveniente da Coreia do Norte. Segundo especialistas, este poderia vir a ser usado na produção de armamento nuclear.

Em termos lógicos, a operação militar israelita é compreensível. Historicamente, o contexto da sua criação pela ONU e conflitos como a Guerra dos Seis Dias mostraram que, entre os seus vizinhos, Israel não é uma nação legitimada e aceite. Na verdade, isso é compreensível: Israel é, para todos os efeitos, uma nação artificial (i.e., fruto de uma decisão política, não da História). Portanto, para os israelitas, o ataque é preventivo. Não é argumento estranho. Como nota Noam Chomsky (3), ele foi usado no Iraque: ataca-se um país antes dele próprio constituir uma ameaça, supondo que o seu crescimento militar constituirá uma ameaça. Do mesmo modo, Israel havia já conduzido uma impressionante operação no Iraque, na década de 1980, com o mesmo propósito (4).
Mas, se a operação israelita é compreensível, também é pouco legítima. Afinal, Israel é um estado democrático (a prová-lo está o recente afastamento do Presidente ou as investigações à conduta do Governo na intervenção no Líbano). Isso é algo raro e assinalável no Médio Oriente, mas também devia obrigar Israel a uma conduta diferente dos seus vizinhos. Mas, sobretudo, Israel tem pouca legitimidade para negar o acesso da Síria e outros países a arsenais nucleares face à sua capacidade nuclear (5, 6). Com efeito, Israel sempre seguiu a chamada policy of deliberate ambiguity, mas sabe-se que terá entre 200 a 400 ogivas nucleares. Para além do mais, não devemos esquecer que este próprio armamento é um elemento dissuasor.
No entanto, o objectivo está longe de ser a Síria, parece-me. Militarmente, a ameaça mais significativa na região não é a Síria. Aliás, é provável que a Síria queira, à imagem da Coreia do Norte, armamento nuclear por questões internas e negociais (i.e., maior poder negocial face à comunidade internacional, maior segurança para o regime). O discurso mais radical é o do regime iraniano. É ele que advoga a destruição de Israel como estado. Deste modo, o ataque na Síria é, essencialmente, um aviso ao Irão. Contudo, pode levar a uma escalada da tensão (7).
A gestão da ameaça nuclear iraniana não tem sido a melhor. A comunidade internacional - e, em especial, os EUA - não oferecem vantagens visíveis ao Irão no abandono do seu programa nuclear. Mostrar músculo para dissuadir o Irão apenas reforça o discurso interno do regime iraniano (que tem tido dificuldades nas políticas internas e merecido alguma insatisfação popular). Isto é, o Irão quer a bomba, mas, obviamente, agradece uma ameaça, um pretexto. Este caminho só leva a que, ironicamente, o regime iraniano possa legitimar esta opção internamente.
A gestão da ameaça nuclear iraniana não tem sido a melhor. A comunidade internacional - e, em especial, os EUA - não oferecem vantagens visíveis ao Irão no abandono do seu programa nuclear. Mostrar músculo para dissuadir o Irão apenas reforça o discurso interno do regime iraniano (que tem tido dificuldades nas políticas internas e merecido alguma insatisfação popular). Isto é, o Irão quer a bomba, mas, obviamente, agradece uma ameaça, um pretexto. Este caminho só leva a que, ironicamente, o regime iraniano possa legitimar esta opção internamente.
Não há dúvidas que Israel pode conduzir uma operação similar no Irão. Podeo fazer e, eventualmente, pode conseguir defender-se de uma retaliação militar. Mas, a ser feita tal opção, a resposta convencional será o menor dos problemas que o Médio Oriente viverá.
Pedro
(3) Cf., Chomsky, N. (2007). Failed states: The abuse of power and the assault on democracy. (Edição Espanhola, p. 240)
0 comentários:
Enviar um comentário